O Açougueiro

III

– Boa noite, Plínio. Ou seria bom dia? Vejo que acordou. Muito gentil de sua parte vir me fazer uma visita.

Plínio abriu os olhos com dificuldade. Sentia uma dor lancinante na cabeça, onde fora atingido com uma pá de jardineiro. Mesmo com a vista ainda um tanto borrada, conseguiu distinguir onde estava. As paredes de azulejo encardido, a mesa de pedra onde jazia amarrado, completamente nu, a luz amarela. Era o porão, aquele mesmo que estivera observando algum tempo antes. Não sabia quanto tempo, mas, lá fora, ainda estava escuro.

– Vejo que você envenenou alguns dos meus gatinhos – continuou Jorge.

O inimigo estava fora de seu campo de visão. Plínio tentou gritar, mas percebeu que tinha sido muito bem amordaçado. Não conseguia emitir mais do que sons abafados, que dificilmente deixariam os limites daquele cômodo macabro. E então, sentiu-se estúpido. Saíra na calada da noite, sem avisar ninguém aonde ia. Jamais saberiam o que se passou com o pobre açougueiro. Ninguém sentiria sua falta quando nunca mais retornasse. E ele tinha certeza de que jamais retornaria.

Não ousava olhar para o lado. Apesar de zonzo, ainda conseguia recuperar na memória a imagem do que o aguardava. A moça… Os restos da moça. Quem seria, meu Deus, aquela pobre alma que agora jazia despedaçada na mesa de pedra ao lado?

Jorge surgiu subitamente, empunhando uma faca bem amolada e lustrosa. Exibiu-a em frete ao açougueiro, orgulhoso do trabalho bem feito.

– Está vendo essa belezinha aqui? – disse, sufocando Plínio com seu bafo de álcool. – O nome dela é Maria Rosa. – E riu sozinho, uma gargalhada cruel que ecoou pelo cômodo azulejado.

O homem arrastou os chinelos, sem pressa, até a mesa onde jazia a moça. Parecia saborear cada segundo daquela tortura. E embora Plínio se forçasse a não olhar o que acontecia ao lado, podia ouvir, sem sequer ter como tapar as orelhas. O som molhado da carne e o assobio tranquilo de Jorge invadiam-lhe os ouvidos, zombeteiros, como que rindo da sua desgraça. Ele não olhava, mas sabia. Sabia que Jorge cortava tira por tira dos músculos da mulher e guardava em saquinhos de papel. Era esse seu vil joguinho, e os gatos, seus aliados. Ajudavam-no a sumir com as provas de seus crimes bárbaros, devorando corpos antes de irem descansar ao sol da praça. E agora Plínio – cruel destino – seria a próxima refeição daqueles que tentara exterminar. Doce ironia. Sentiu o estômago embrulhar.

– Veja bem – retomou Jorge, vindo postar-se em frente aos olhos esbugalhados do açougueiro –, vou confessar uma coisa, Plínio. Nunca fui muito com a sua cara. Homem, você é chato demais!

Deliciou-se com uma risada e deu um tapinha amistoso na cabeça do rival.

– Será que você sempre me encheu o saco por causa da puta da Maria Rosa? Eu ficava me perguntando, ficava mesmo. Homem, vou te dizer uma coisa, mulher nenhuma merece isso, não. Ela te largou e veio dar pra mim. Sabe o que um homem de verdade faz quando isso acontece? Sabe?

Plínio permanecia imóvel, paralisado de terror.

– Estou te fazendo uma pergunta, homem. Sabe o que um homem de verdade faz quando uma puta larga ele e vai dar pra outro?

O açougueiro sacudiu a cabeça, os olhos fixos no carrasco, temendo qualquer movimento mais brusco. Jorge sorriu.

– A Maria Rosa sabe… – disse, afinal, soltando outra bela gargalhada. – Você acreditou mesmo naquela historinha de que ela foi pra Fortaleza, né? Adoro gente do interior.

Jorge deixou escapar algumas lágrimas. Pensou na amada, com seus vestidos floridos, o cabelo cacheado esvoaçando. Lembrou-se de seu perfume doce, suas carícias ousadas, sua voz de sereia. E então foi tomado pela imagem que seu cérebro teimava em organizar. Imaginava o corpo da moça jazendo frio naquela mesa de pedra, esquartejado, dissecado e dado como comida a gatos vadios. Ela nunca o deixara, não de verdade. Talvez por algum tempo, sim, mas acabaria voltando, se não tivesse sido assassinada por aquele que julgava amá-la.

– Ah… Não chore, Plínio. Ela mereceu. Todos eles mereceram. Putas de estrada, ladrões de galinha. Eu não sacio os meus desejos com quem não merece. Só nos meninos e meninas más. Eu jamais faria uma coisa dessas com a dona Firmina, por exemplo. O que ela me fez? Uma torta de morango! Por que eu faria mal a alguém que me prepara uma torta de morango? – Sumiu novamente do campo de vista do açougueiro e então recomeçou o som do amolador de facas. – Gosto muito do pessoal daqui, sabe? Gente simples, não fazem perguntas, não implicam com a minha casa nem com os meus gatos, então eu caço em outros lugares. Meu único problema aqui sempre foi você e essa sua fixação na Maria Rosa. Mas eu sempre achei que era só coisa de corno com o orgulho ferido. Você nunca foi uma ameaça real, só uma pedrinha no meu sapato.

Plínio ouviu uma garrafa ser aberta e o som de um líquido que escorregava para dentro de um copo de vidro. Os passos de Jorge voltaram a se aproximar e ele viu uma dose de uísque sacudindo perto de seu nariz.

– Está servido? – perguntou Jorge, irônico. – Ah, desculpe. Acho que você não vai conseguir beber com essa mordaça. Que pena, queria fazer um brinde a você. Terei que brindar sozinho.

Jorge bateu o copo de leve na cabeça do açougueiro e virou a bebida logo em seguida. Soltou uma baforada de álcool e um sonoro arroto.

– Pois então, Plínio. Como eu ia dizendo, só dou pros meus gatinhos os restos de gente má. Gente que rouba os outros, que abandona, que invade a casa dos vizinhos… E você sabe o que você foi esta noite, não sabe? Um menino muito, muito mau. Você entrou na minha casa sem autorização e pior, envenenou meus amiguinhos. O que eu devo fazer com você, Plínio? Alguma sugestão?

O açougueiro sentiu, em meio a espasmos de terror, que perdera completamente o domínio do corpo. Havia se urinado, como um velho gagá. Estava em pânico, gelado e horrorizado. Fechou os olhos embebidos de lágrimas e começou a rezar um Pai Nosso.

– Ah, Plínio! Olha o que você fez! Sujou meu local de trabalho. Como você quer que eu dê carne mijada pros meus gatos? Pelo amor de Deus, homem.

Um forte jato de água gelada atingiu o corpo nu do açougueiro. Plínio foi espancado pela fúria da água, que entrava pelo nariz e impedia a respiração, já tão prejudicada. Sufocou, engasgou, debateu-se como um peixe na mesa lisa. Não conseguiu terminar a reza.

– Pronto, está limpo. Acho que podemos começar o seu castigo, o que me diz?

Plínio sacudia a cabeça, os olhos bem abertos. Tentava gritar por piedade, jurar que fugiria dali e que nunca mais se ouviria falar dele, mas todas as suas palavras eram barradas pela mordaça. As veias do pescoço estavam dilatadas, ele tremia e se agitava tentando escapar da frieza do assassino. Emitiu um grito surdo quando a lâmina afiada perfurou-lhe a pele pela primeira vez. Um corte profundo na coxa, em toda a extensão do fêmur. Sentiu a carne ser separada do osso, a vista falhar. Nunca imaginara ser possível sentir tanta dor.

– Homem, pare de se debater, você vai arruinar meu trabalho! – riu Jorge. – Fique quieto ou eu vou ter que te machucar.

Talvez Plínio tenha desmaiado. Quando abriu os olhos de novo, viu um pedaço da própria perna sacudindo em frente ao rosto. Jorge sorria enquanto exibia aquele belo bife.

– Eu gostaria da opinião de um profissional – disse o matador. – Que tal o meu corte? Eu daria um bom açougueiro? Não precisa responder. Sei reconhecer um bom corte de carne quando vejo um. E meus gatinhos são os melhores juízes.

Jogou o bife no chão. Plínio não podia ver, mas ouvia os gatos devorarem aquilo que, um dia, fizera parte de sua perna.

– Olha, Plínio… Parece que eles te adoram. Queria que você visse como meus gatinhos estão contentes com o banquete que você está oferecendo! Afinal, foi para isso que você veio aqui hoje, não foi? Alimentá-los. Pois eles se fartarão, meu amigo, se fartarão. E direto da fonte. Hoje eles não precisam de intermediários. Só vou guardar um pouco para os que faltaram, viu? Com licença.

A faca voltou a dilacerar a carne do açougueiro. Jorge cortava pedaços de Plínio em tirinhas finas e jeitosas, que guardava em saquinhos de papel pardo cuidadosamente enfileirados sobre uma pia de aço inox. Faltavam lascas de carne do tórax, braços e coxas do açougueiro, todas abocanhadas pelos pequenos carniceiros de olhos sinistros. A tortura durou até o alvorecer. Quando Jorge finalmente se deu por satisfeito com seus saquinhos macabros, o sol já despontava na janelinha do porão. Plínio ia e voltava de um estado de inconsciência cada vez mais profundo, que o tragava para a escuridão confortável de esquecer o que se passava ali. Jorge serviu outra dose de uísque.

– Plínio, Plínio, Plínio… – disse, enquanto enxugava da testa o suor de uma noite inteira de trabalho meticuloso. – Eu adoraria ficar aqui com você, mas aqueles velhos desocupados devem estar me esperando para jogar xadrez. Você não se incomoda de me esperar aqui, né? Não se preocupe, vou te deixar em ótima companhia. Esses bichinhos são muito espertos. Só preciso tomar um banho antes de ir. Não queremos que pensem mal de mim, não é? Não vá dormir, hein, Plínio. Eu já volto.

E voltou, cheirando a colônia e barba feita. Salpicou as cavidades abertas de Plínio com comida de gato e chamou os bichanos para o banquete. Assobiando um tango de Carlos Gardel, pegou os saquinhos de papel pardo e se pôs a caminho da praça.

O açougue não abriu naquele dia. Enquanto bispos e rainhas disputavam a atenção dos reis, Plínio lançava seu último esgar. Sentia dentadas minúsculas como agulhas afiadas a perfurarem seus órgãos internos. Sentia as patinhas macias massageando-lhe as costelas e o fígado, quase uma recompensa por suportar as garras pontudas dos bichanos furando-lhe a carne a cada pisada. Chorou e ficou gelado, até que parou de sentir. Antes do último suspiro, desejou encontrar Maria Rosa. Talvez ali, depois da vida, os dois finalmente pudessem ter uma história juntos, ainda que em espírito. Morreu com um sorriso.

Quando o açougue não mais abriu e a cidade se encheu de gatinhos assassinados, os moradores concluíram, em choque, que o pobre açougueiro tinha perdido o juízo de vez. Devia ter feito a atrocidade de envenenar os bichanos e fugido depois, coberto de vergonha. Não foram atrás. Jorge era o mais abalado.

– Tem muita maldade no mundo – dizia, enquanto acariciava os gatinhos sobreviventes. – Uma pessoa que faz isso com bicho, imagina o que não faria com gente?

Enfiou a mão no saquinho de papel e tirou uma lasca de carne.

_____

Gostou do conto? Compartilher com seus amigos!



2 comentários

Kássia Monteiro

2 comentário

Kássia Monteiro

Comentário

Leave a Reply