O Açougueiro

II

Plínio saiu bem cedo, no dia seguinte. Dirigiu sua Belina azul 1977 por cerca de duas horas na estrada de terra até a cidade vizinha. Resolvera, finalmente, tomar uma atitude. Se ninguém naquele lugar se importava com a situação de insalubridade em que viviam, bom, ele se importava. E daria um jeito nela, por bem ou por mal.

Abasteceu o carro com um carregamento de chumbinho digno de um assassino em massa. Os gatinhos não gostavam de carne? Pois naquela noite iriam se refestelar. Ele garantiria um banquete aos bichanos, o último de pelo menos uma de suas sete vidas. Agora, quem iria espumar pela boca eram eles.

Não abriu o açougue quando voltou. Passou a tarde inteira preparando suas iscas mortais. Abateu alguns gatinhos ali mesmo, aqueles malditos audazes que teimavam em invadir-lhe o território. Para a noite, reservou seu plano mais ousado. Atacaria direto o ninho das cobras, o quartel-general da gataria: a casa de seu rival.

Esperou a lua minguante estar alta no céu. Vestido de preto, como um carrasco medieval, esgueirou-se pela cidade em silêncio, levando em uma sacola de feira sua carga assassina. Deixou algumas iscas na pracinha, para os gatos preguiçosos que não foram buscar comida direto na fonte, mas guardou a maior parte para o exército de felinos que se amontoava nos domínios de seu inimigo.

A casa de Jorge estava às escuras, pelo menos para quem olhava pela grade do portão enferrujado. Ali era o lugar óbvio para escalar, pois era possível apoiar os pés nos vãos dos detalhes de ferro, mas Plínio preferia algo mais discreto. Deu a volta até um beco lateral, para onde os galhos das árvores do vizinho se projetavam. Aquela era sua melhor chance de invadir a casa sem ser visto.

O cheiro de seu banquete começou a atrair os gatos, que miavam e se esfregavam nele com olhos pidões. Chutou alguns para longe, pendurou a sacola no pescoço e começou um esforço homérico para trepar na árvore. Já não era mais um rapazinho. Quando finalmente conseguiu, a camisa estava suada e o coração acelerado. Talvez o carteiro tivesse razão, talvez ele estivesse à beira de um colapso cardíaco. Trataria de começar a fazer exercícios no dia seguinte.

Pulou para o quintal de Jorge, também infestado de gatos, e começou a distribuir seus petiscos. Chamava os bichanos com onomatopeias discretas, fingia gostar deles e então lhes dava de comer sua refeição final. Deixou-se sorrir ao imaginar como estaria aquele quintal na manhã seguinte, cheio de gatinhos assassinados, e mais ainda ao se dar conta de que todos suspeitariam de Jorge. Afinal, não era ele quem alimentava os pobres diabos? Devia ter-lhes dado comida estragada, um monstro.

A casa continuava silenciosa, a não ser pelos sons dos felinos que exigiam comida. “Calma”, pensava Plínio. “Tem o bastante para todo mundo”. Consultou o relógio: três e meia da manhã. Devia ser a única alma acordada naquela cidade. Já se sentia suficientemente à vontade na casa do inimigo para avançar mais. Caminhou pelo corredor lateral, silencioso, sempre distribuindo seus petiscos, até o quintal dos fundos. Uma horda ainda maior daqueles pequenos infames aguardava-o com olhos famintos. Despejou todo o conteúdo da sacola no chão e ficou observando sua proeza. Invadira a casa do homem que lhe havia roubado a vida e agora ceifaria todos os seus amiguinhos de quatro patas. Ah, como seria bom o dia seguinte! Uma pena que não pudesse assumir publicamente o feito heroico.

Já se preparava para partir quando notou a luzinha amarelada. Vinha rente ao chão de terra batida, próxima a um puxadinho onde Jorge guardava toda sorte de tranqueiras. A curiosidade foi maior do que a prudência, aguçada pelo fato de que vários gatos se acumulavam em frente àquilo que identificou ser uma janelinha de porão.

Deitou-se no chão e rastejou até a janela, afastando os gatos que vinham cheirá-lo e esfregar suas pulgas nele. Nunca antes se esforçara tanto para não fazer barulho, nem quando a mãe o estapeava durante as lições de leitura silenciosa. Limpou o suor da testa e controlou a respiração antes de espiar dentro do cômodo. Nada o prepararia para o que viu. Tomado de pânico, esqueceu toda a cautela e disparou pelo quintal. Queria sair dali o mais rápido possível, só pensava em ir para longe, para a segurança de seu quarto de paredes azuis, atrás das portas metálicas de seu açougue. Corria tão depressa, tão desgovernado, que não prestava mais atenção nos gatos. Pisou em alguns, que protestaram com miados altos de dor e raiva, ofendidos pela agressão.

Alcançou a árvore pela qual subira e começou uma tentativa desesperada de pendurar-se no galho mais baixo. Pulava, esticava os braços o máximo que podia, mas em vão. O cansaço e o horror tiravam-lhe o controle dos membros, ele tremia. Precisava sair dali! Com certeza estava tendo um ataque de hipertensão. Pensou em correr para o portão, escalar as grades, não importava mais que o vissem. Aliás, até queria ser visto. Estaria mais seguro na cadeia por invasão de domicílio do que ali. Não houve tempo. Quando a ideia de fugir pela outra entrada cruzou-lhe a cabeça, ouviu o rangido da porta dos fundos se abrindo. Jorge surgiu contra a luz, uma silhueta gorda e inocente. Os gatos voaram sobre ele, atraídos pelo cheiro acre que exalava. Ele ouvira o protesto dos bichanos e viera ver o que se passava.

Plínio tentou se esconder atrás do tronco da árvore, mas sabia que já havia sido visto. Um nó formou-se em sua garganta, impedindo-o de gritar ou respirar. Juntou todas as forças que tinha para dar seus três últimos passos, uma tentativa torpe de chegar ao portão, escalar e fugir. Ainda conseguiu ver a enorme sombra do inimigo erguendo-se atrás dele, inescapável, antes do golpe que o atingiu na cabeça.

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