O Açougueiro

I

Era um senhor sorridente e amável, o seu Jorge. Passava as tardes jogando xadrez na pracinha, calça cáqui e camisa listrada. Às vezes apostava na loteria, em busca daquele sonho de todo aposentado que é sair pelo mundo em um cruzeiro. Era adorado pela gente do lugarejo onde morava, dava bom dia aos vizinhos, ajudava a refazer cerca velha e arrumava fiação desencapada. Já consertara o ferro de passar da dona Ângela, a bicicleta do Vitinho e até a touca elétrica da Marlene do Stillus Coiffeur. Só não conseguia agradar a uma pessoa naquele lugar: seu Plínio Marcos de Almeida, o dono do “Carne Vermelha”, único açougue da cidade.

A rusga entre os dois era antiga. Até as fofoqueiras profissionais já haviam esquecido como Maria Rosa largara a vida no açougue para morar com Jorge, mesmo tendo deixado também o amante, pouco depois, para sumir pros rumos de Fortaleza. Ninguém mais comentava a briga que Plínio e o rival travaram nos degraus da igreja, trocando socos e pontapés pelo amor da moça. Só restava aquela indisposição mútua, os olhares atravessados e a língua ferina do açougueiro, que teimava em atacar o adversário. Assim, para a nova geração de cidadãos do município, seu Jorge era apenas um gentil e afabilíssimo homem que sofria uma perseguição infundada de um velho ranzinza incapaz de superar um chifre.

Maria Rosa tinha sido o grande amor da vida do açougueiro. Gostava de roupa apertada, usava batom vermelho e tinha cheiro de flor. Quando passava os dedos gelados pela careca dele, provocava uma comichão imprópria que o deixava todo arrepiado. E o homem sonhara com o futuro, com a casinha amarela que teriam no fim da rua, os filhos de cabelos encaracolados como os da mãe, uma vida inteirajuntos. Mas então surgira Jorge, forasteiro másculo, cheirando a estrada e suor. Desapegado da vida, ar de quem sabe de tudo e tem pena da gente simplória do interior. Maria Rosa encantou-se pelo homem no instante em que o viu. E foi pelos cabelos dele que resolveu esfregar os dedos dali para a frente.

Moraram juntos, ela e Jorge, por cerca de um ano ou dois. Plínio amargava as chacotas dos amigos e a tristeza de um coração despedaçado. Quando começaram os boatos de que a moça já tinha se cansado do amante e andava de caso por aí, o coração do açougueiro pulou com a ilusão de que talvez Maria quisesse voltar para ele. Mas, quando ela partiu, sem nem dizer tchau, fugida na noite, invisível, para nunca mais voltar, suas esperanças finalmente se rarefizeram e o pobre homem foi forçado a aceitar a verdade. O espírito de Maria Rosa era livre e ela jamais conseguiria ser mulher de um homem só, tampouco escrava das fronteiras de uma cidade tão diminuta. Estavam derrotados, ele e o rival. Maria Rosa não era de ninguém. Mas, mesmo sem a disputa inicial, continuara eternamente a achar motivo de briga com Jorge.

O hábito que o aposentado mantinha de alimentar os gatos vadios da praça era o mais novo e constante motivo de reclamação do inimigo. Os felinos, em cio desenfreado, multiplicavam-se mais rápido do que coelhos e passavam as noites em cantorias intermináveis pelos telhados. Espalhavam pulgas, invadiam o açougue com seus olhos sinistros e, a qualquer oportunidade, tratavam de roubar um bife ou um pé de porco para saciar sua fome de irritá-lo. Expulsava-os às vassouradas, resmungando pragas.

Plínio odiava os gatinhos na mesma medida em que Jorge os amava. A casa do forasteiro vivia cheia deles. Serpenteavam pelos muros, tomavam sol nas telhas quebradas, equilibravam-se nas árvores sombrias que ocultavam a casa de paredes bolorentas. O odor que exalavam podia ser sentido a metros de distância. A casa de Jorge fedia. Por duas vezes Plínio chamara a prefeitura para dar jeito no caso. Afastavam os gatos por algum tempo, multavam o velho, mas depois o maldito voltava a dar carne para os bichanos, atraindo todos de volta e, com eles, o fedor constante.

Os vizinhos, exceto pelo açougueiro, não reclamavam. Se o aroma pútrido da casa de Jorge não os agradava, sua companhia era apreciadíssima. Adoravam sentar-se com ele em rodas de papo na calçada, dividir um churrasco ou ouvir as histórias de outros tempos e lugares. Apesar de ter escolhido a cidadezinha para morar, Jorge continuara a fazer suas viagens pelo país afora. Entulhava alguns pertences na caminhonete, um modelo antigo e barulhento com uma caçamba de fazer inveja a navio, e passava semanas na estrada. Quando voltava, cansado, passava dias enfiado em casa repousando. Notas de Tchaikovsky e Vivaldi lhe escapavam das janelas enquanto ele gozava o descanso merecido. Uma vez recuperado, fazia a alegria dos gatos com os pedacinhos de carne que ia jogar na pracinha e a dos vizinhos com os causos que tinha para contar. Era a torta que ele ganhou do vigário por salvar a igreja de um incêndio criminoso, o acidente terrível que partiu alguém ao meio, polícia prendendo bandido, moças bonitas na estrada… O mundo andava violento. E Jorge dava carona, sim senhor, levava as moças até em casa, dignamente. Só tomava liberdades com as que já eram libertinas. Para Plínio, tudo não passava de peripécias inventadas por um velho safado, das quais ele tomava conhecimento pelas línguas incontidas das clientes do açougue. E, nos últimos dias, seu ódio pelo rival só crescia.

Jorge acabara de voltar de mais uma de suas viagens. A cidade, que experimentara cerca de um mês livre da presença dos gatos, voltava a encher-se deles. Os bichanos pareciam farejar a presença do seu bom aventureiro e amontoavam-se na casa malcheirosa do homem, esperando que ele viesse alimentá-los novamente. De seu açougue, Plínio observava a movimentação cuspindo xingamentos. Sabia que seria inútil procurar o prefeito, de quem Jorge era padrinho de casamento e compadre. O chefe de polícia do município devia dinheiro ao homem, o padre era grato pelos serviços que ele prestara à igreja. Ninguém naquela cidade parecia compartilhar a opinião de que Jorge não prestava. E aqueles malditos gatos voltaram a atacar-lhe as carnes, mijar no balcão, espalhar suas pulgas e pelos por todo lado. Pareciam ter chamado os amigos de cidades vizinhas, porque nunca haviam sido tantos, miando e ronronando pelas ruas de paralelepípedos.

– Vagabundo… E essa carne toda pra essas pestes?

– Desculpa, o que o senhor disse, seu Plínio? – perguntou o carteiro, que pedira um quilo de patinho caprichado e picanha pro churrasco de domingo.

– Nada, meu filho, nada. Só que alguém devia tomar uma atitude.

Plínio fuzilava com os olhos a pracinha onde Jorge jogava xadrez com os amigos enquanto distribuía petiscos aos gatos.

– O senhor tá falando do seu Jorge, não é? – quis saber o funcionário dos Correios. – Poxa, seu Plínio, deixa o homem em paz! Não tá vendo que ele não faz mal a ninguém? O senhor ainda vai ter um ataque cardíaco de tanto passar raiva à toa. Fica espumando pela boca que nem bobo e o outro não tá nem aí pro senhor. Quanto foi que deu a compra mesmo?

Saiu sacudindo a sacola plástica. Deixou Jorge com um sorriso nos lábios. Inadvertidamente, o carteiro dera-lhe uma bela ideia. 

2 comentários

Kássia Monteiro

2 comentário

Kássia Monteiro

Comentário

Leave a Reply